
Autora: Profª Drª Maricí Martins Magalhães
A chamada Magna Grécia compreendia as áreas ao sul da atual Península Itálica e o lado leste da ilha da Sicília, que foram colonizados pelos gregos entre os séculos VIII e VI a.C.

Essas colônias tornaram-se cidades prósperas (gr. póleis), onde desempenharam um perfil fundamental na disseminação da cultura helenística na Península Itálica, com bem 40 (quarenta) centros urbanos. Num sentido mais amplo, inclui ainda a ilha da Sicília, onde também se verificou, além de sua língua, o fenômeno da colonização e difusão da cultura grega como da religião, arte, arquitetura, escrita, etc. Os novos gregos e as suas colônias cunharam moedas da extraordinária beleza e das quais o Museu Histórico Nacional (MHN) conserva milhares de exemplares: tais peças, reflexos das culturas helênico-itálica e helênico-siciliana, fazem parte da chamada coleção “Antônio Pedro de Andrade”.
Veremos aqui alguns exemplares cunhados em algumas colônias, apresentados no sentido de norte a sul das respectivas regiões.

As cunhagens de moedas propriamente ditas, iniciaram na Magna Grécia a partir do século VI a.C. e perduraram até a ocupação romana no séc. III a.C., estendendo-se ainda a várias comunidades da Itália Central como Phistelia.

Itália, Campania, Phistelia
AR. Óbolo; mm. 10,9-11,4; gr. 0,59. Reg. 1924.1159.9
A/ Cabeça masculina imberbe, de frente, com cabelos curtos divididos em gomos (divindade local).
R/ FISTLVIS, em osco, semicircular e retrógrada, à esq.; delfim, grão de cevada e marisco.

C. 325-275 a.C.
Dentre as colônias mais antigas da Magna Grécia, Sybaris foi a primeira “pólis” a cunhar moeda, por volta de 540–530 a.C., seguida das colônias de Caulonia, Poseidonia, Croton, Tarentum e Metapontum.

Itália, Lucania, Sybaris
AR. Stater; mm. +24-29,2; gr. 6,84. Reg. 1924.1176.2
A/ ∑ꓲ, retrógrada, no exergo; touro retrospiciente à esq.
R/ Mesmo tipo incuso.

Entre 550-510 a.C.

Essas primeiras moedas foram cunhadas de maneiras incusa, ou seja, o tipo do anverso em relevo aparece também em negativo no reverso, no mesmo alinhamento, provenientes de Sybaris, Metapontum, Poseidonia, Croton e Caulonia, respectivamente.
Outras cidades ou “póleis” também cunharam moedas de prata com a técnica tradicional, como Hyele (Velia) no século V a.C., e posteriormente, ao longo do mesmo século, também Terina, Rhegium, Thurii e Taras (Tarentum). Os tipos sicilianos foram até difundidos e cunhados por artesãos grecânicos em cidades da África, como Carthago.


Sículo-Púnicas. Carthago, cunhada na Sicilia.
AR. Tetradracma; mm 24,6-26; gr. 16,22. Reg. 1924.1198.1
A/ Cabeça feminina (Persephone-Tanit) à esq., com cabelos cacheados e coroa de espigas, circundada por quatro delfins; c.p.
R/ Cavalo em pé à dir.; à esq., crescente; c.p.

c. 350-340 a.C.
Na ilha da Sicília, várias cidades cunharam moedas a partir de 530 e 480 a.C., como Naxos, Zankle (com Messina), Himera, Selinunte e Sybaris, posteriormente.

Os tipos em relevo sobre as peças magno-gregas e sicilianas mostram símbolos das cidades como animais, plantas, objetos, rituais, e depois frequentemente a representação de cabeças de divindades gregas locais. Aparecem ainda variações de pequena dimensão em prata em Taras (Tarentum), Syracusae, Naxus, Camarina e, posteriormente estendeu-se até a Gallia, com a colônia de Massalia.

Europa, Gallia, Massalia
AR. Dracma; mm. 15,7-16; gr. 2,49. Reg. 1924.1142.1
A/ Cabeça de ártemis à dir., com aljava; atrás, monograma AT ou ∏A.
R/ MA∑∑A; leão à dir.; letra M; no exergo, AET; c.l.

II – I séc. a.C.
Algumas cidades magno-gregas e sicilianas também cunharam peças em bronze, como, por exemplo, Thurii (cerca de 480 a.C.), Acragas (Agrigentum), Gela e Himera, entre outras. Por volta de 480–450 a.C., aparecem tipos mais numerosos, como em Syracusae e em Messina, Leontini, Agrigentum, e Gela. As moedas de Syracusae são as peças mais significativas com o relevo da cabeça da ninfa Arethusa.
A partir do V século a.C., destacam-se as emissões de prata magno-gregas de Neapolis, Thurii, Hyele (Elea) e Tarentum.


Europa, Sicilia, Syracusae
AR. Tetradracma; mm. 24-25,3; gr. 17,44. Reg. 2002.009 MHN
A/ Quadriga à dir., guiada por figura masculina com chicote; cavalos coroados por Nike à dir.; c.p.
R/ ∑YPAKO∑ION, à dir.; cabeça feminina com diadema de contas (ninfa Arethusa), à dir., com cabelos suspensos e ondulantes; em torno, quatro delfins.

C. 485-425 a.C.


Europa, Italia, Campania, Neapolis
AR. Didracma; mm. 17,6-18,6; gr. 7,34. Reg. 1924.1156.1
A/ Cabeça feminina (sereia Parthenope) à dir., com cabelos recolhidos por sphendone; longos brincos e colar; atrás da nuca, Kantharos; sob o pescoço, LI.
R/ [NE]EO∏OLITH[∑], no exergo; touro androprosopo à dir., coroado por Nike em vôo; entre as patas, BI.

C. 317-310/300 a.C.
Além disso, no IV século a.C., destacam-se tipos especiais e diversos em moedas de Locri Epizephyrii, Hipponium, Poseidonia (Paestum) e Phistelia, em plena região Campania.
De Syracusae emergem as pratas e os bronzes com cabeça da deusa Athena em 375–345 a.C., além dos tipos de 317–305 a.C., com os da deusa Ártemis. É aí que terminam as cunhagens puramente magno-gregas e sicilianas, com as cópias dos cartagineses, que já haviam tomado o lado oeste da ilha da Sicília, enquanto a chamada Magna Grécia foi invadida pelos romanos.
Fotos:
Cléber José das Neves, Museólogo (In Memoriam)
Oscar Henrique Liberal, Fotógrafo (IPHAN).
Fontes:
MAGALHÃES, M.M. Sylloge Nummorum Graecorum Brasil I. Moedas gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011.
LAGO, L. A. C. do. A coleção do Museu Histórico Nacional e a história da moeda metálica: as seções “grega” e “provincial romana”. In: MAGALHÃES, M.M. Sylloge Nummorum Graecorum Brasil I. Cidades gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011, pp. 9–23.
GRECO, E. Magna Grecia. Bari, Laterza, 1983.
TORELLI, M. — COARELLI, F. Sicilia. Bari, Laterza, 1984.
