Projeto: “Moedas em Contexto: Curadoria da Coleção de Numismática do Museu Histórico Nacional na plataforma Tainacan” 

Carimbos da Biblioteca Nacional no acervo do Museu Histórico Nacional 

Thais Helena de Almeida  

Nathalia Rosa Chaves Amorim  

Em 1890, a Biblioteca Nacional instituiu a Seção de Estampas e Numismática, reunindo sob uma mesma chefia diferentes coleções. Anos depois, o Decreto nº 8.835, de 11 de julho de 1911, alterou essa configuração ao criar a Seção de Moedas e Medalhas, destinada especificamente a abrigar a coleção de Numismática. Contudo, essa nova seção não se restringia exclusivamente a esse acervo. Um documento assinado pelo diretor Cícero Peregrino (1900–1924), datado do início do século XX e endereçado ao “Sr. Chefe da 3ª Seção” (Seção de Estampas e Numismática), evidencia a diversidade de itens então reunidos. No referido documento, o diretor informa o envio de um carimbo da Real Bibliotheca e de outros períodos, fotografias, comendas, sinetes, um carimbo de metal com cabo de madeira e a inscrição Imperial Bibliotheca, além de um sinete de metal articulado, também com cabo de madeira, com os dizeres “Da Real Bibliotheca”, objetos que se encontravam em seu gabinete (Silva, [190-]). 

Com a criação do Museu Histórico Nacional, por meio do Decreto nº 15.596, de 2 de agosto de 1922 (Brasil, 1922), a coleção de numismática da Biblioteca Nacional foi selecionada para integrar o acervo da nova instituição. Nas Disposições Gerais e Transitórias do referido decreto, o artigo 83 definiu as instituições responsáveis pela transferência de parte de suas coleções históricas ao Museu Histórico Nacional (MHN). A alínea 2 desse artigo determinou que “o acervo da Seção de Moedas e Medalhas da Biblioteca Nacional, inclusive as obras impressas que formam a biblioteca especial da seção”, passaria a compor o acervo do MHN. 

A transferência efetivou-se em outubro de 1923, conforme atesta o ofício nº 507, datado de 27 de novembro de 1923, encaminhado pela Biblioteca Nacional ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. No documento, o diretor-geral interino da Biblioteca Nacional, Aurélio Lopes de Souza, informa que a coleção foi removida da instituição ao final do mês anterior e esclarece que, além das “moedas, medalhas e outras espécies” e das obras impressas previstas no artigo 83, a expressão “acervo da seção de moedas e medalhas” deveria ser compreendida em sentido amplo, abrangendo igualmente seus móveis e demais pertences. Entre esses bens, destacava-se o gradeado de ferro que funcionava como casa-forte destinada à guarda das coleções (Souza, 1923). Baseado nestes documentos, foi iniciado um levantamento na coleção de Numismática custodiado pelo Museu Histórico Nacional, onde foram identificados, além de alguns dos itens mencionados nos ofícios de Cícero Peregrino e de Aurélio Lopes de Souza, outros objetos vinculados à rotina e as práticas biblioteconômicas da Biblioteca Nacional. Esses itens encontram-se descritos em uma planilha organizada por número de registro, na qual são listados todos os selos, sinetes e carimbos pertencentes à coleção do MHN. Esta planilha reúne informações como modo de aquisição, estado de conservação, título, descrição, autoria, data de produção, país ou região de origem, materiais e técnicas, peso e dimensões, entre outros dados relevantes para a pesquisa numismática. Nessa documentação, foram identificados dois carimbos úmidos (com uso de tinta), três carimbos secos (por pressão, que gera um relevo no papel) e dois sinetes.  

Carimbos úmidos 

Dentre os carimbos úmidos mais antigos, destaca-se o da Real Bibliotheca – Casa do Infantado, utilizado para marcar livros e documentos destinados à formação dos príncipes portugueses. 

Essa peça museológica foi exibida na exposição Um novo mundo, um novo império: a corte portuguesa no Brasil, 1808–1822, realizada entre março e junho de 2008, no Museu Histórico Nacional. No catálogo da mostra, o carimbo é descrito como um objeto de bronze e madeira, datado do século XIX, pertencente à Coleção do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro (Fernandes; Tostes, 2008, p. 122) (Figura 01). 

Figura 01: Carimbo úmido da Real Bibliotheca – Casa do Infantado. 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

Contudo, até o momento, a análise e pesquisa documental no acervo da Biblioteca Nacional identificou apenas livros e documentos carimbados com esse instrumento datado do final do século XVIII, o que suscita questionamentos quanto à cronologia de uso atribuída à peça, e aponta para a necessidade de investigações adicionais sobre sua datação e circulação institucional. 

Outra peça de grande relevância na coleção do Museu Histórico Nacional é um carimbo úmido com a inscrição “Imperial Bibliotheca”. De formato elíptico, o objeto apresenta o brasão de armas do Império, composto por uma esfera armilar atravessada pela cruz da Ordem de Cristo, circundada por dezenove estrelas, encimada pela coroa real e ladeada, de um lado, por ramos com folhas e frutos do café e, de outro, por folhas e flores do tabaco, encerrando a composição heráldica. No que se refere aos materiais, trata-se de uma peça confeccionada em metal e madeira, datada do século XIX (Figura 02). 

Figura 02: Carimbo úmido – Imperial Bibliotheca 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

Carimbos secos 

No conjunto de carimbos secos, encontramos o da Bibliotheca Imperial e Nacional – Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça de metal marmorizado na cor vermelha e punho de madeira natural. Este carimbo traz gravado na parte frontal e superior, o nome do fornecedor: Recker Paris (Figuras 03 e 04).  

Figuras 03 e 04: Carimbo seco – Bibliotheca Imperial e Nacional e detalhe da informação. 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

Integra ainda o acervo do Museu Histórico Nacional o carimbo seco Bibliotheca Nacional – Secção de Estampas – Rio de Janeiro. Essa peça é composta por metal marmorizado em tom amarelo ocre, com punho de madeira pintado de preto. O resultado de seu relevo pode ser observado na gravura de A. Pinto, pertencente à Seção de Iconografia da Biblioteca Nacional. A datação provável de seu uso parece coincidir com o período posterior à chefia da Seção de Estampas, em 1876, pelo retratado, conforme indicado pelas evidências documentais disponíveis (Figuras 05 e 06). 

Figuras 05 e 06: Carimbo seco – Secção de Estampas e detalhe do carimbo. 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

Outro carimbo seco identificado na coleção é a pequena peça correspondente à 3ª Seção, que apresenta a inscrição abreviada Bibl. Nac. – 3ª Sec. – Rio de Jane.. O objeto foi confeccionado em metal marmorizado em tom amarelo ocre, com punho de madeira natural (Figura 07). 

Figura 07: Carimbo seco – Bibliotheca Nacional, 3ª secção, Rio de Janeiro. 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

Sinetes 

Diferentemente dos carimbos, os sinetes destinam-se à selagem e autenticação de documentos e correspondências, sendo utilizados com cera derretida para a impressão do motivo gravado. O conjunto inclui dois sinetes de metal. 

Um dos sinetes traz a inscrição “Da Imperial Bibliotheca” e apresenta o brasão de armas do Império, repetindo a iconografia observada no carimbo úmido da Imperial Biblioteca (Figura 08).  

Figura 08: Sinete Da Imperial Bibliotheca. 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

O segundo sinete, também datado do século XIX, corresponde à Bibliotheca Nacional – Rio de Janeiro e apresenta, ao centro, a coroa imperial.  

Trata-se de uma pequena peça circular, confeccionada em metal, com punho de madeira pintado de preto. Na extremidade final do punho, observa-se uma placa metálica com a identificação do gravador e sua proveniência: STERN Graveur – 47 Passage Panoramas (Figuras 09 e 10). 

Figuras 09 e 10: Sinete Bibliotheca Nacional – Rio de Janeiro e detalhe da placa do gravador. 

Fonte: Coleção de Numismática – Museu Histórico Nacional.  

Fotografado pelas autoras (2024). 

O fornecedor Stern Graveur foi uma empresa francesa de gravadores e impressores fundada em Paris, em 1834, cujas atividades incluíam a gravação em metal aplicada a diversos suportes, como menus, abotoaduras, medalhas, cartões de visita, peças heráldicas, papelaria e documentos oficiais (Graveur Stern, 2025). 

Estas peças, integrantes da coleção de Numismática do MHN são testemunhas de uma prática adotada nas bibliotecas públicas brasileiras, que remontam ao século XIX. Para o bibliófilo francês Édouard Rouveyre, a prática de carimbagem seria mais adequada às bibliotecas públicas, que teriam necessidade de marcar suas obras como medida de segurança (Rouveyre, 1899, p. 89). São marcas de propriedade, que atestam períodos e momentos administrativos da Biblioteca Nacional. 

Frequentemente tratadas como peças silenciosas, destinadas à carimbagem em tinta ou à impressão em relevo e, muitas vezes, despercebidas ao olhar do visitante, as matrizes de carimbos revelam sua potência histórica e documental quando submetidas à análise sistemática e sob a ótica de objeto museológico, que em sua própria existência, fornece informações complementares de grande importância para a pesquisa de proveniência. 

Um levantamento exaustivo desses objetos, ainda que não definitivo, permitiu a produção de informações a partir de sua conferência e sua impressão em suporte documental, bem como por meio de medições, descrições técnicas e visitas ao Museu Histórico Nacional, com o objetivo de reunir e sistematizar dados, resultando em um aprofundamento da compreensão das práticas e do pensamento biblioteconômico de diferentes épocas, ainda que em uma mesma instituição, ao longo dos anos. 

A articulação entre imagens, objetos e documentos possibilitou a reelaboração de aspectos da memória desse acervo museológico, reconhecido como parte integrante do patrimônio cultural brasileiro. Essa tríade traz consigo diversas possibilidades de pesquisas interdisciplinares, que tendo em comum os mesmos objetos históricos e museológicos, podem contribuir significativamente para a memória historiográfica da Biblioteconomia luso-brasileira, em diferentes momentos políticos. 

Referências bibliográficas 

BRASIL. Decreto nº 15.670, de 6 de setembro de 1922. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1920-1929/decreto-15670-6-setembro-1922-517434-republicacao-91890-pe.html. Acesso em: 25 jul 2025. 

FERNANDES, Lia Silvia Peres; TOSTES, Vera Lúcia Bottrel. Um Novo mundo, um novo impérioa corte portuguesa no Brasil, 1808-1822. Rio de Janeiro, RJ: MHN, 2008. 

ROUVEYRE, Edouard. Connaissances nécessaires à um bibliophile. 5 ed. 

Paris: Edouard Rouveyre, 1899. 

SILVA, Manoel Cícero Peregrino da. BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Ofício 6 de setembro de 189… . Rio de Janeiro. (Coleção Biblioteca Nacional. Setor de Iconografia).  

SOUZA, Aurélio Lopes de. BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Ofício nº 507, 27 de novembro de 1923. Rio de Janeiro. (Coleção Biblioteca Nacional. Setor de Manuscritos).