Mateus Mello Araujo da Silva (Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense)
Doutor pelo Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da Universidade Federal Fluminense (UFF – Niterói). Foi pesquisador convidado da Université Paris Cité e do ANHIMA (Anthropologie et Histoire des Mondes Antiques) entre os anos de 2022 e 2023. Foi membro da equipe científica da escavação arqueológica do assentamento de Kayalipinar – Samuha, no distrito de Sivas (Turquia) no ano de 2025. Foi bolsista CAPES pelo Programa de Excelência Acadêmica (2021 – 2025). Tornou-se graduado em História e Mestre na mesma instituição como bolsista do CNPq. Foi bolsista da A. G. Leventis Foundation durante o curso de formação de pós-graduandos em numismática grega da British School at Athens (2023) e de Iniciação Científica/PIBIC (2014-2016). É membro do Núcleo de Estudos de Representações e de Imagens da Antiguidade (NEREIDA/UFF) e do grupo de pesquisa em Numismática Antiga (MAE/USP).
Cós é uma ilha situada na costa da Ásia Menor, sendo um importante centro econômico e cultual da Grécia Antiga, especialmente durante o período helenístico (323 – 30 a.C.). Duas moedas da coleção do Museu Histórico Nacional são atribuídas à ilha pelo catálogo numismático Sylloge Nummorum Graecorum Brasil I e sua análise abre uma janela importante para a compreensão das práticas monetárias e da religião grega do período.
A primeira moeda de bronze (N. 125644; SNG Brasil I 1254) tem visível em seu anverso, apesar do desgaste da peça, uma cabeça masculina sem barba vestindo uma coroa de louros. As representações antropomórficas nas moedas gregas da Antiguidade são majoritariamente de divindades, logo a representação de um deus jovem – por isso representado sem barba – e vestindo uma coroa de louros seria de fácil identificação para um grego do período: Apolo. Para além de Apolo, a moeda apresenta em seu anverso uma contramarca, isto é, uma gravação feita sobre uma das faces da moeda após sua cunhagem original com a finalidade de a ressignificar. A contramarca dava à moeda um novo valor ou reconhecia a validade de sua circulação em um contexto no qual ela não era tradicionalmente aceita (como no caso de circular em território estrangeiro ou após uma nova cunhagem já ter sido introduzida pelo poder emissor). A contramarca da moeda de bronze grega não possui uma indicação de valor ou origem óbvia, apenas uma cabeça sem barba e com uma coroa radiada – possivelmente representando o deus solar Hélios.
O reverso dessa moeda apresenta uma lira em seu centro, atributo tradicional do deus Apolo. As liras gregas podem ser subdivididas principalmente em dois grupos, a chelys e a cítara, a primeira sendo uma versão mais simples feita a partir de um casco de tartaruga e a segunda um instrumento de corda mais complexo. A associação de Apolo com as liras, seja a chelys ou a cítara, é atestada na cultura literária (desde Homero) e imagética da Grécia Antiga. O instrumento representado na moeda é uma chelys.
À direita da chelys, a legenda ΑΡΙΣΤΟ[ΚΛΗΣ] identifica o nome do magistrado responsável por essa emissão: Aristokles. Essa leitura diverge daquela apresentada pelo catálogo supracitado, que identifica o magistrado enquanto Ariston (ΑΡΙΣΤΟΝ). Outras moedas da mesma emissão contêm o nome do magistrado em melhor estado, sendo possível identificá-lo com segurança enquanto Aristokles. Por outro lado, não há registro de moedas com Apolo e a chelys em Cós contendo o nome do magistrado Ariston. À direita da lira, está o étnico, isto é a legenda que identifica a origem/posse da moeda: ΚΩΙΩΝ (“dos coanos” ou “dos cidadãos de Cós”). Ao redor da lira e das legendas, há uma coroa de louros. Sua datação é do I século a.C.
Já a segunda moeda de bronze grega (N. 125645; SNG Brasil I 1255) apresenta um anverso também bastante desgastado, mas que permite a identificação de uma cabeça masculina barbada portando uma coroa de louros. Já o reverso encontra-se mais bem preservado, apresentando uma serpente enroscada em um bastão, acompanhada de ambos os lados por legendas. A identificação da divindade representada no anverso é Asclépio, deus grego da medicina. Ele é representado tradicionalmente enquanto um homem adulto – portanto barbado – e com uma coroa de louros, atributo compartilhado com seu pai, o deus Apolo. Essa identificação é reforçada pelo reverso com o bastão circundado pela serpente, que é considerado o atributo de Asclépio e o símbolo da medicina até os dias atuais.
Asclépio possuía centros cultuais importantes na Grécia Antiga, como Epidauro, Tricca, Cós e Pérgamo. A moeda em questão é atribuída a uma dessas cidades, Cós, pelo catálogo supracitado. É importante frisar que a cidade de Cós era também o centro da escola dos Asclepíadas (que teve Hipócrates, reconhecido enquanto pai da Medicina, como seu membro mais conhecido). Sendo um centro importante ligado ao deus, a cidade produziu numerosas moedas de bronze com a representação de Asclépio e do seu bastão ao longo dos II e I séculos a.C. Porém, uma leitura mais aprofundada das legendas do reverso indica que a sua origem pode ser diversa. O catálogo mencionado anteriormente lê à direita do bastão a legenda em grego ΚΩΥΩΝ (isto é, “dos coanos” ou “dos cidadãos de Cós”). Já à esquerda, a legenda é lida pelo catálogo enquanto ΣΟΤΗΡ – Soter, possível referência ao nome do indivíduo incumbido de ser o magistrado responsável pela emissão dessas moedas. Um primeiro desafio é que não é atestada a existência do nome desse magistrado em nenhuma outra moeda de Cós nos demais catálogos de moedas gregas antigas.
Uma segunda questão que pode ser apresentada é uma nova análise das legendas. À direita do bastão de Asclépio estão legíveis as letras ΣΚΛΗ (e não ΚΩΥΩΝ), que formam parte do nome [Α]ΣΚΛΗ[ΠΙΟΣ] – isto é, Asclépio, o nome do próprio deus representado no anverso. Já à esquerda do bastão não está escrito apenas ΣΟΤΗΡ, mas ΣΩΤΗΡΟΣ – isto é, Salvador em grego, título comumente associado ao deus da medicina e da cura. Dessa forma, a legenda do reverso da moeda não seria ocupada pelo nome da cidade e do magistrado, conforme apresentado no catálogo, mas pelo título do deus: Asclépio Salvador (ΑΣΚΛΗΠΙΟΣ ΣΩΤΗΡΟΣ). Essa leitura da legenda coloca em xeque até mesmo a identificação da cidade emissora enquanto Cós, tendo em vista que as moedas da cidade, apesar de representarem Asclépio e seus atributos, não possuem tal legenda de “Asclépio Salvador”. Essa inscrição está presente nas moedas de outro importante centro cultual do deus: Pérgamo. Essa cidade, localizada no interior montanhoso da Ásia Menor (hoje Turquia), emitiu moedas com as mesmas características descritas anteriormente entre o II e o I séculos a.C. Além disso, a cabeça da serpente de diversas moedas de Pérgamo se projetam para a direita, separando as duas primeiras letras do nome do deus (ΑΣ-) do restante de seu nome (-ΚΛΗΠΙΟΣ), da mesma forma que o exemplar do Museu Histórico Nacional. Dessa forma, é possível afirmar que a moeda em questão se trata de uma emissão de Pérgamo, e não de Cós.
Referências
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GRAF, Fritz (2009). Apollo. Londres: Routledge.
MAGALHÃES, Maricí Martins (2011). Sylloge Nummorum Graecorum, Brasil I, Museu Histórico Nacional. Moedas gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.
MARCELLESI, Marie-Christine (2012). Pergame de la fin du Ve au début du Ier siècle avant J.-C. Pratiques monétaires et histoire. Studii Ellenistici, vol. 26. Pisa: Fabrizio Serra Editore.
PAUL, Stéphanie (2013). Cultes et sanctuaires de l’île de Cos. Revue Kernos. Supplément 28. Liège: Presses Universitaires de Liège.
VERGARA, Fabio (2001). Os Instrumentos Musicais na Vida Diária da Atenas Tardo-arcaica e Clássica (550-400 a.C.) – o testemunho de vasos áticos e de textos antigos. Tese (doutorado). Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE – USP).
