Gisele Oliveira Ayres Barbosa
Doutora em História (UNIRIO), Mestre em História Antiga e Medieval (UFRJ), Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Referência da Antiguidade e do Medievo (NERO-UNIRIO) e do grupo de pesquisa sobre Numismática Antiga (MAE/USP). Realiza pesquisas relacionadas a temas ligados à Antiguidade Clássica, em especial cultura, religião, política e iconografia numismática na República Romana.
O quinário, moeda de prata de cerca de 13 ou 14 mm de diâmetro, surgiu no contexto da reforma do sistema monetário ocorrida em 211 a.C., durante o período da República Romana. Naquele momento, Roma passou a centralizar a produção de suas moedas, instituindo o denário como a unidade fundamental do novo sistema. O quinário correspondia a meio denário.
Diferentemente do que ocorreu com o denário, a produção de quinários não foi contínua. Poucos anos após a criação, sua emissão foi interrompida por razões desconhecidas e só foi retomada mais de cem anos depois, entre 101 e 97 a.C. Após novo hiato, quinários foram cunhados por ocasião da Guerra Social (91 a 88 a.C.), durante a segunda fase da Guerra Civil (49 a 45 a.C.) e nas últimas décadas da República, por iniciativa de líderes envolvidos na disputa pelo poder.
A Coleção de Numismática do Museu Histórico Nacional possui em seu acervo exemplares do tipo cunhado por C. Fundânio em 101 a.C. que marcou o retorno da emissão dos quinários na passagem do II para o I século a.C. (Imagens 1, 2, 3 e 4). ). O nome do monetário (C FUNDA, com ND em monograma) localiza-se no reverso, à direita da cena, melhor visualizável nos exemplares nº 207846 e 207847 (Imagens 4 e 5).
Imagem 1: Quinário de C. Fundânio, Roma, 101 a.C., MHN nº 164308
Imagem 2: Quinário de C. Fundânio, Roma, 101 a.C., MHN nº 164309
Imagem 3: Quinário de C. Fundânio, Roma, 101 a.C., MHN nº 164310
Imagem 4: Quinário de C. Fundânio, Roma, 101 a.C., MHN nº 207846
A moeda ostenta, no anverso, a efígie do deus Júpiter e, no reverso, a da deusa Vitória de pé, coroando um troféu, isto é, espólios de guerra dispostos de forma vertical. A deusa Vitória é identificada nas representações principalmente através de suas asas, um diferencial em relação a outras divindades O atributo encontra-se observável principalmente nos exemplares nº 164309 e 164310 (Imagens 3 e 4). No mundo grego, os troféus (tropaîa) simbolizavam as vitórias e eram erguidos no próprio campo de batalha ou, em caso de triunfo no mar, na terra mais próxima. Como cada conquista era atribuída à ajuda divina, o troféu também cumpria a função de oferecer agradecimentos imediatos aos deuses. Entre os romanos, os primeiros troféus de que se tem notícia foram erguidos por Fábio Máximo e Domício Aenobarbo, em 121 a.C., por ocasião da vitória sobre os alóbrogos, uma tribo gaulesa.
A iconografia que combina Júpiter no anverso e Vitória coroando um troféu no reverso representou uma mudança significativa, uma vez que essas não eram as imagens padrão dos primeiros quinários cunhados no final do século III a.C. Nos primeiros tempos de sua existência, os quinários compartilhavam a iconografia dos denários. Ambos ostentavam, no anverso, a efígie da deusa Roma, a divindade feminina que personificava a cidade republicana, e, no reverso, os Dióscuros, os deuses gregos irmãos que, desde cedo, foram incorporados ao panteão romano e se tornaram patronos do exército romano. A iconografia dos novos quinários foi tomada de empréstimo de outra moeda: o vitoriato, um tipo cunhado durante um curto período da história romana, entre os anos de 211 e 170 a.C.
O que levou a essa inovação iconográfica nos quinários cunhados entre 101 e 97 a.C.?
O antigo vitoriato era uma moeda tradicionalmente associada às campanhas militares e aos triunfos, utilizada para o pagamento dos veteranos de guerra e no contexto dos assentamentos coloniais na Itália no século III a.C. Entre 104 e 101 a.C., o general Caio Mário havia obtido importantes vitórias contra as tribos germânicas que ameaçavam as fronteiras de Roma ao norte. A partir de 101 a.C., pelo menos, Mário e seus seguidores promoveram uma emissão excepcional de moedas, com vistas, possivelmente, a viabilizar o assentamento dos veteranos do exército marianista nas terras recém-conquistadas ao norte do rio Pó, na região das Gálias.
A utilização do tipo do vitoriato nos novos quinários possivelmente foi uma referência à memória da expansão colonial do passado, e a adoção dessa iconografia à época de Mário se conecta com a retórica e a utilização dos antigos vitoriatos.
O troféu representado na moeda de C. Fundânio possui referências à região das Gálias, em especial por meio do carnyx colocado à direita na cena. O carnyx era uma trombeta com cabeça de animal na extremidade, geralmente utilizada pelos gauleses para incentivar as tropas. A representação do objeto acha-se especialmente visível nos exemplares nº 164308 e 207846 (Imagens 1 e 4).
A excepcionalidade da cunhagem é reforçada pela letra “Q”, particularmente nítida no exemplar nº 207847 (Imagem 5), colocada abaixo da imagem no reverso, indicando que os emissores eram questores e não triúnviros monetários. Os triúnviros eram os magistrados encarregados das cunhagens regulares da República Romana.
As características destacadas no quinário de C. Fundânio (iconografia inspirada nos vitoriatos, referências gaulesas e emissão realizada por questores) são encontradas nos outros quinários conhecidos cunhados nos anos seguintes. A recorrência desses elementos reitera a interpretação de que essas emissões eram parte de um movimento e não o resultado de escolhas individuais. Uma exceção é encontrada no quinário cunhado em 97 a.C. por iniciativa do questor C. Egnatuleio, que traz, no anverso, a efígie do deus Apolo, em vez da efígie de Júpiter.
Após esse período, os quinários cunhados em épocas subsequentes apresentam iconografia variada.
Referências:
CRAWFORD, Michael H. Roman Republican Coinage. 2 vols. Cambridge: Cambridge University Press, 1974
PARISOT-SILLON, Charles. Soldats, vétérans et monnaies romaines : le cas du victoriat au IIe siècle av. n. è. Revue Numismatique, 2018, 175, p .241-283.
