Claudio Umpierre Carlan
Professor Titular de História Antiga
Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG)
Durante o período conhecido com Antiguidade Tardia (III-VIII), também denominado como Baixo Império (III-V), o mundo romano sofreu uma série de transformações, servirão de modelo para os períodos vindouros, tanto nos reinos medievais da Europa Ocidental, como Portugal e Espanha, quanto no mundo moderno. Um período de profunda transformações políticas, sociais, religiosas, administrativas, econômicas, militares, entre outras.
Anverso: IMP DIOCLETIANVS PF AVG
Reverso: IOVICO AVGG


Acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Foto: Cláudio Umpierre Carlan
Follis de bronze cunhada durante o período da tetrarquia (295-305). Fabricada entre os anos de 304 e 305, na cidade de Alexandria. A “cara” ou anverso, representa o busto do Imperador Diocleciano, radiado, como uma coroa de raios. Na “coroa” ou reverso, a imagem de Júpiter, divindade suprema. Representando uma figura masculina, com globo na mão direita, símbolo da realeza e perfeição, com a imagem da Vitória, deusa alada.
Follis, foi uma amoedação de bronze, criada no início da reforma econômica a de Diocleciano, entre os anos de 294 e 295.
Durante os 20 anos da tetrarquia, Diocleciano era considerado um iuno, filho de Júpiter.
Teremos uma série de reformas, dos mais variados modelos, entre os séculos III e V. Depois de um período de guerra civil, Constantino (272-337) sai vitorioso, a partir de 324, torna-se único imperador.
Nos anos de 330 e 341, popularizaram os nomes das duas capitais do Império, Roma e Constantinopla. Algumas dessas peças, com a legenda VRBS ROMA, se refere ao mito fundador da cidade: Rômulo e Remo. Se repararmos, aparecem ainda por cima duas estrelas, é a constelação zodiacal de Gêmeos, que representam os dois Dióscuros, Castor e Pólux, os soldados de Júpiter, que defenderam Roma no início da sua fundação.
Nessa amoedação, no anverso, notamos o busto da deusa Roma (representando a cidade), voltada à esquerda do observador, com capacete e o manto imperial. Circundada pela legenda VRBS. Pois, Roma ainda era considerada a Cidade por excelência, aquela que todas as outras deveriam copiar e admirar. No reverso, sem legendas, no campo monetário, a loba amamentando os gêmeos Rômulo e Remo, numa alusão a fundação e origem da cidade. Acima dessas representações duas estrelas. Essas estrelas representam a visão do primeiro imperador, Augusto, no século I a. C., como uma mensagem de Júlio César para ele. César, através dos astros, estaria indicando Otávio Augusto como seu sucessor. Essa simbologia acompanhou dos demais imperadores com o passar dos séculos, legitimando o seu poder.
Outra inspiração ocorrida durante o século IV é o progresso de uma ideia dinástica. Nesse período ocorreram menos desordens do que nos anteriores. Efetivamente após ter conhecido uma dinastia constantiniana (Constantino I) e uma valentiniana (Valentiniano I), o século V conhece uma dinastia teodosiana (Teodósio I). Ambas interligadas entre si, através do casamento dos seus membros.
Moeda de Bronze, cententionalis, Imperador Constâncio II.


Acervo Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Foto: Claudio Umpierre Carlan;
ANVERSO: DN CONSTAN-TIVS PF AVG – busto de Constâncio II, diademado à direita. Nessas cunhagens, centenional, imperador é representado com manto, globo na mão direita. Globo, símbolo da perfeição e do poder imperial. Centenional, eram moedas de bronze cunhadas por Constantino I, o grande, pai de Constâncio II, a partir do ano de 330, pesando aproximadamente 4 gramas. Essa denominação foi criada no século XIX. Nome original dessa cunhagem, ainda é desconhecida.
REVERSO: FEL TEMP REPARATIO – retorno aos tempos felizes, o imperador, Constâncio II, com uniforme militar, lábaro com o símbolo cristão, iniciais da palavra Cristo em grego, com dois prisioneiros persas sassânidas. Pisando em um deles, numa representação claro de dominação. Moeda cunhada na segunda casa monetária de Nicomédia (SNN, no exergo ou linha de terra), entre os anos de 352 e 355.
A inovação desse século consistiu em discutir a ideia de uma linha sucessória direta e familiar: Constantino pensou nos seus sobrinhos e Valentiniano I, centrado na defesa militar e das fronteiras, principalmente no Reno e Danúbio (invasões germânicas), associou-se a seu irmão Valente.
A ideia familiar foi suficientemente forte para que, de uma dinastia a outra, se procurasse criar um laço, através do matrimônio. Valentiniano casa o filho, Graciano, então como dezesseis anos, com a neta de Constantino, de treze anos. E Teodósio, por sua vez, desposou a filha de Valentiniano.
Isso não significa que a história dessas dinastias fosse sempre calma. A da família constantiniana, por exemplo, oferece uma série de tragédias palacianas, chacinas, rivalidades fraternas levadas até a guerra civil. Houve revoltas e usurpações, culminando com o assassinato de imperadores legítimos. Mas, ao contrário dos séculos anteriores, com a exceção de Constantino e Juliano, nenhum desses episódios violentos culminou no triunfo do usurpador.
É o surgimento de um sentimento de lealdade monárquica, apesar de uma série de transtornos. A melhor prova disso é que, apesar de toda a carência militar e política, os filhos de Teodósio I morreram de morte natural.
Paulatinamente, vai-se instalando nas vastas regiões imperiais um respeito à púrpura, ao manto imperial. Assim, esses imperadores reformadores, contaram com essas amoedações, para legitimar e justificar o seu governo. No Museu Histórico Nacional, graças a sua rica coleção, temos aproximadamente duas mil moedas, que retratam esse período.
Como um exemplo, podemos observar o solidus constantinianus, cunhado por ordem do Imperadora Arcadio (377 – 408), filho e sucessor na parte oriental do Império, e Teodósio I (378-395), que, a partir do ao de 383, é associado ao trono, junto com seu irmão, Honório (395-423), no ocidente.
O solidus constantinianus, moeda de ouro introduzida pelo Imperador Constantino I durante a reforma monetária de 312, sendo considerado o padrão ouro até século XI. O historiador irlandês, Peter Brown (Universidade de Princeton), identificou essa moeda com o dólar da Idade Média.
O solidus de ouro cunhados por Arcádio, possuem uma grande semelhança com os do seu irmão Honório. No anverso o busto com diadema e manto imperial, preso aos ombros, e a legenda DN ARCADIVS PF AVG, Dominus Noster Arcadius Pius Felix Augustus / Nosso Senhor Arcádio, Piedosos e Feliz Augusto.
Na iconografia do reverso o próprio Arcádio, de uniforme militar, acompanhado do lábaro cristão e o sinal de Constantino (PX), com exergo ou linha de terra COMOD, identificando o local de cunhagem Mediolanum, atual Milão, na Itália, entre os anos de 395 e 402, pesando aproximadamente 4,5 gramas.


Foto: Claudio Umpierre Carlan, Museu Histórico Ncional
As moedas de ouro cunhadas em Milão, por ordem de Arcádio, são consideradas raras, uma autêntica representação do solidus, tendo uma grande influência nos reinos germânicos, depois da queda do império ocidental, em 476.
Referências
CARLAN, Claudio Umpierre. Moeda e Poder em Roma: um mundo em transformação. São Paulo: Annablume, 2013.
CARLAN, Claudio Umpierre. Moeda, propaganda e poder: as moedas do imperador Constâncio II (317-361) e o acervo do Museu Histórico Nacional. São Paulo: Fonte Editorial, 2023.
