Gabriela Nogueira Ferreira
Mestranda da Universidade Federal de Alfenas – Programa de Pós-Graduação em História Ibérica.
Desde seu surgimento, a moeda não se constitui como um simples meio de troca, mas como um objeto dotado de função política, sendo inicialmente apresentada como um pedaço de metal com marca impressa e referência à autoridade que lhe garantia o valor, a moeda expressava relações de poder e legitimação no interior das sociedades antigas.
Nesse sentido, o presente artigo propõe discutir a função política da moeda no mundo grego, a partir da análise de exemplares pertencentes ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
As moedas mais antigas foram encontradas na região da Lídia, atual Turquia, e produzidas no século VII a.C. A produção da moeda expandiu-se rapidamente, ocorrendo uma proliferação de denominações monetárias, de que se destacam as representações animais, sejam eles domésticos, silvestres, selvagens ou fantásticos. A fim de ilustrar essa forma de representação animal, optou-se pela análise de uma moeda produzida na cidade de Phocis, que apresenta o touro como elemento iconográfico.
(Imagem 1)
A imagem apresenta uma cabeça de touro e um protome de javali correndo à direita. Barclay Head (1884) afirma em seu livro Catalogue of Greek Coins: Central Greece (Locris, Phocis, Boeotia and Euboea) que a principal representação nas moedas da Fócida é a cabeça de um touro. Para o autor, o touro pode-se referir a um sacrifício especial em homenagem ao herói Phokos, que dá nome a pólis, e que havia um templo em sua homenagem na região. Nesse templo, havia sacrifícios todos os dias do ano, e em momentos de necessidade, um grande sacrifício, onde era sacrificado um touro premiado. Já o Javali, de acordo com o mesmo autor, refere-se a deusa Ártemis, já que esse animal estava intimamente ligado a seu culto e a representação da deusa foi substituída pela do javali.
Como a emissão monetária era de monopólio do Estado, e estando a Hélade dividida em inúmeros pequenos Estados, cada estado escolhia e produzia a sua própria moeda, que traziam figuras de significado emblemático que revelavam características específicas do Estado emissor. Essas características poderiam ser legendas que identificassem seu emissor, siglas das casas de cunhagem, os deuses patronos e/ou seus animais símbolos — Como a deusa Atena e sua coruja, representadas adiante na Imagem 2.
O poder de cunhar, alterar, invalidar ou emitir a moeda foi quase sempre uma prerrogativa do Estado. De fato, as moedas não estavam restritas ao mero uso econômico cotidiano, mas serviram a propósitos políticos bem definidos ao longo dos séculos. Na antiguidade, emitir moedas era sinal de um status político para além da atividade econômica, e as representações contidas neste artefato eram referência direta do seu local de emissão. Desse modo, desde o século VII a.C. podemos compreender a moeda como um meio de propagação e de afirmação política por meio das informações imagético-literárias que portam em seu anverso e reverso.
Além disso, outra importante característica que sustenta seu papel de propagação e afirmação política, é que a moeda é um objeto que ultrapassa os limites geográficos e ideológicos do poder que a emitia. Sendo muitas vezes os únicos objetos que chegavam de uma maneira uniforme ao público, eram importantes para a divulgação de feitos, mensagens políticas, governantes, mitos, entre outros, dado que a população comum era, em sua maioria, analfabeta, e as imagens, em geral, e nas moedas, em particular, constituíam um elemento central de identificação e entendimento de mensagens. A clássica moeda ateniense, representando de um lado a deusa Atena e do outro sua coruja, é um exemplo claro do uso de uma imagem cunhada como elemento de identificação de uma polis:
(Imagem 2)
Esse estilo de representação, além de ser um elemento de propaganda política da cidade de Atenas, tornou-se um elemento de identificação daqueles que se reconheciam como helenos. Desse modo, através da cunhagem de Atena ou de sua coruja, podia-se significar o reconhecimento de uma identificação política entre autoridades emissoras, além do vínculo implícito quanto à religião e ao culto a essa divindade. Atenas era um dos polos políticos, culturais e econômicos dentro e fora do conjunto helênico, deste modo, a afirmação política presente em sua cunhagem ultrapassa os limites geográficos e ideológicos de sua fronteira.
O processo de adoção da representação de divindades para figurar as moedas cunhadas pelas cidades gregas está intrínseco ao seu processo de sua consolidação, já que cunhar moedas denota o grau de organização e autonomia política de uma pólis. Sendo assim, ao retratar a imagem de um deus, as moedas expressavam, um aspecto da identidade de uma pólis que não poderia existir separada da divindade com a qual estava intimamente ligada.
Além disso, o emblema selecionado para a cunhagem monetária podia remeter a elementos memoráveis do passado lendário da cidade ou ao papel desempenhado pelas divindades em sua fundação, contribuindo para a legitimação de sua própria existência. Um exemplo desse processo pode ser observado na seguinte moeda produzida em Poseidonia, na qual se encontra cunhada a imagem de Poseidon. Ao eleger essa divindade como elemento representativo em sua iconografia monetária, os habitantes da pólis evocam simbolicamente a figura de seu fundador e/ou protetor, reafirmando, assim, o culto e a centralidade do deus na identidade cívica da comunidade.
(Imagem 3)
Conclui-se, portanto, que, embora a moeda fosse utilizada para propaganda política, as moedas produzidas pelas cidades-estados gregas não apresentavam a imagem dos governantes, diferentemente das moedas romanas. A iconografia monetária grega privilegiou, sobretudo, à esfera religiosa ou representou elementos relacionados a características específicas de cada cidade emissora. O estudo das moedas gregas pertencentes ao acervo do Museu Histórico Nacional evidencia a moeda grega como uma fonte histórica privilegiada para a compreensão das dinâmicas políticas, religiosas e identitárias das cidades-estados. A análise dessas representações permite, portanto, compreender a moeda como um instrumento ativo na construção da cultura e na afirmação da autonomia política da pólis no contexto do mundo grego antigo.
Imagens:
Imagem 1: Phocis (460-430 a.C.)
AR.A/ ΦΟ dos lados; cabeça de touro de frente. R/ Protome de Javali correndo à dir., dentro de um quadrado incluso. Óbolo; mm. min 8,8; max. 10,8; gr. 0,89. Reg.n. 1924. 1233.10. Cf. SNG Cop. 90-93; SNG Del. 12711272. In: MAGALHÃES, Maricí Martins. Museu Histórico Nacional: moedas gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011. N° 125493
Imagem 2: Atenas (480-400 a.C.)
AR.A/ Cabeça de Athena à dir. R/ AΘE, descendente, à dir.; coruja à dir., com asas fechadas, dentro de quadrado incluso; à esqu., ramo de oliveira e crescente. Tetradracma; mm. min. 24,1; max.25,2; gr. 16,74. Ref. n. 2002.010.MHN. Cf. SNG Cop. 31-40; SNG Del. 1440-1449 (em geral). In: MAGALHÃES, Maricí Martins. Museu Histórico Nacional: moedas gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011.
Imagem 3: Poseidonia (530-480 a.C.) n° de registro: 124995
AR. A/ ΠΟΣ descendente à esq. e ΟΙΔ(?) ascendente à dir.; Poseidon nu, com chlamys sobre os ombros, avançando à dir. e brandindo tridente; duplo c.p. R/ ΠΟΣ descendente; mesmo tipo incluso; .p. Dracma; mm. min. 19,5; max. 20,3; gr. 3,41. Reg. n. 1924.1174.2. Cf. SNG ANS 619-627. In: MAGALHÃES, Maricí Martins. Museu Histórico Nacional: moedas gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011.
Referências
CARLAN, Cláudio Umpierre; FUNARI, Pedro Paulo. Moedas: a numismática e o estudo da História. São Paulo: Annablume, 2012.
FLORENZANO, M.B.B. Anotações sobre a representação de monstros nas moedas gregas. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia , São Paulo, p: 223 -234, 1995.
MAGALHÃES, Maricí Martins. Evolução ideológica e cultural das moedas “gregas”: Do tótem à religião de Estado. In: Numisma: Estudos Interdisciplinares Sobre Numismática Antiga. Vassouras: Universidade de Vassouras, 2024, p. 56-85.
MAGALHÃES, Maricí Martins. Museu Histórico Nacional: moedas gregas e provinciais romanas. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011.
