Rodes e o deus Hélios 

(N.? / SNG Brasil I 1257; N. 125646 / SNG Brasil I 1258; N. 125647 / SNG Brasil I 1259; N. 125650 / SNG Brasil I 1260; N. 125648/ SNG Brasil I 1261; 12565 / SNG Brasil I 1262; N. 125653 / SNG Brasil I 1263; N. 125651 / SNG Brasil I 1264) 

Mateus Mello Araujo da Silva (Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense) 

Doutor pelo Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da Universidade Federal Fluminense (UFF – Niterói). Foi pesquisador convidado da Université Paris Cité e do ANHIMA (Anthropologie et Histoire des Mondes Antiques) entre os anos de 2022 e 2023. Foi membro da equipe científica da escavação arqueológica do assentamento de Kayalipinar – Samuha, no distrito de Sivas (Turquia) no ano de 2025. Foi bolsista CAPES pelo Programa de Excelência Acadêmica (2021 – 2025). Tornou-se graduado em História e Mestre na mesma instituição como bolsista do CNPq. Foi bolsista da A. G. Leventis Foundation durante o curso de formação de pós-graduandos em numismática grega da British School at Athens (2023) e de Iniciação Científica/PIBIC (2014-2016). É membro do Núcleo de Estudos de Representações e de Imagens da Antiguidade (NEREIDA/UFF) e do grupo de pesquisa em Numismática Antiga (MAE/USP).  

Um conjunto de 8 moedas da ilha de Rodes preservadas na coleção do Museu Histórico Nacional (formado por 2 didracmas e 6 dracmas) apresenta em seus anversos uma cabeça sem barba em uma perspectiva frontal com inclinação em três quartos – representação pouco comum nas moedas da Antiguidade clássica, que privilegiavam a representação de deuses e governantes de perfil. Essa cabeça em três quartos apresenta mechas de cabelo esvoaçantes – com apenas uma das didracmas apresentando-a também radiada (coroada de raios solares) – e representa o deus Hélios. Ele era a divindade tutelar da ilha de Rodes, que cunhou moedas com a representação do deus por séculos. Não por acaso, a representação mais famosa do deus na Antiguidade estava localizada na ilha: o Colosso de Rodes, construído no porto da capital da ilha por Chares de Lindos em 280 a.C. e derrubado por um terremoto em 226 a.C. 

Os reversos dessas moedas representam uma rosa em seu centro. Sua escolha se deve a um jogo de palavras, tendo em vista que o nome da flor (rosa em grego antigo é ῥόδον) se assemelha ao nome da ilha (Ῥόδος). Dessa forma, a rosa passa a representar a ilha de Rodes por sua sonoridade. Os reversos dessas moedas também contêm diversos outros elementos, como marcas de controle, monogramas e legendas contendo o nome do magistrado responsável pela cunhagem e o étnico – indicando a origem ou a posse dessa moeda através da inscrição completa ΡΟΔΙΟΝ nas didracmas (isto é, “dos ródios” ou “dos cidadãos de Rodes”) ou através de abreviações com apenas as duas primeiras letras nas dracmas. 

Quatro nomes de magistrados, posicionados acima da rosa, são legíveis em cinco das seis dracmas da coleção do museu: Babon (ΒΑΒΩΝ; N. 125648 / SNG Brasil I 1259), Gorgos (ΓΟΡΓΟΣ; N. 125650 / SNG Brasil I 1260; N. 125652/ SNG Brasil I 1261), Straton (ΣΤΡΑΤΟΝ; N.? / SNG Brasil I 1262) e Stasion (N. 125649 / SNG Brasil I 1264). Já as marcas de controle, normalmente à esquerda da flor, identificam a emissão de forma mais precisa que o nome do magistrado: cacho de uvas (N.? / SNG Brasil I 1257), estrela (N. 125648 / SNG Brasil I 1259), caduceu (N. 125650 / SNG Brasil I 1260; N. 125652/ SNG Brasil I 1261; N.? / SNG Brasil I 1262) e clava sobreposta a um arco (N. 125649 / SNG Brasil I 1264). Certos desses atributos são comumente associados a outras divindades, como a uva ao deus Dioniso, o caduceu a Hermes e a clava e o arco em conjunto a Héracles – chamado Hércules em latim.  

As dracmas de Rodes com a representação de Hélios no anverso e da rosa no reverso foram amplamente copiadas fora da ilha. Essas denominações, que imitavam as oficiais ródias, são nomeadas pelos especialistas como dracmas pseudo-ródias – note-se que elas não são falsificações modernas, mas moedas cunhadas na própria Antiguidade que buscavam simular uma origem diversa da real. A hipótese mais tradicional é de que as moedas pseudo-ródias foram emitidas para o pagamento de mercenários principalmente no norte da Grécia e se utilizavam da aparência das moedas ródias devido à sua grande aceitabilidade entre os mercenários da ilha de Creta, reconhecidos como exímios arqueiros na Antiguidade. Para a sua diferenciação das dracmas oficiais de Rodes, deve-se observar que as dracmas pseudo-ródias muitas vezes não apresentam étnico, têm uma qualidade dos cunhos e do processo de cunhagem abaixo do esperado, uma flutuação do peso-padrão da moeda, um eixo irregular e/ou associações de nomes de magistrados e marcas de controle ausentes nas moedas reconhecidas enquanto ródias. 

Entre as dracmas analisadas, apenas aquela com o nome do magistrado ΣΤΑΣΙΩΝ e a marca de controle da clava e arco sobrepostos pode ser caracterizada com segurança enquanto uma emissão oficial de Rodes, datada de 205 – 190 a.C. As demais, com diferentes graus de segurança, podem ser atribuídas enquanto dracmas pseudo-ródias. A dracma com o nome ΒΑΒΩΝ certamente é pseudo-ródia, pois esse magistrado não é registrado em Rodes. Além disso, não há o étnico de Rodes na moeda (seja ΡΟΔΙΟΝ ou simplesmente ΡΟ) e o monograma feito a partir da junção das letras gregas Μ e Ι dá a entender que sua origem seja de Mileto, cidade localizada na costa da Ásia Menor (atualmente na Turquia). A moeda contendo o nome do magistrado ΣΤΡΑΤΟΝ e a marca de controle do caduceu também é seguramente pseudo-ródia devido à ausência do étnico e da falta de atestação do nome desse magistrado na cunhagem regular de Rodes. Já as duas moedas contendo a associação do magistrado ΓΟΡΓΟΣ com a marca de controle do caduceu provavelmente são pseudo-ródias, apesar do nome desse magistrado ser atestado em emissões oficiais de Rodes. Porém a associação da marca de controle do caduceu com o nome Gorgos não é atestada na ilha. As dracmas pseudo-ródias podem ser datadas de cerca de 170 a.C. Por sua vez, as didracmas – que são emissões oficiais de Rodes – são de diferentes períodos, datadas de 340 – 316 a.C. (no caso de N. ? / SNG Brasil I 1257) e de 255 – 245 a.C. (no caso de N. 125647 / SNG Brasil I 1258). 

O quadro apresentado pelas moedas de Rodes preservadas na coleção do Museu Histórico Nacional, apesar de à primeira vista parecer monótono e repetitivo com a constância da associação de Hélios e da rosa, na verdade esconde uma interessante realidade. As representações de Hélios podem variar, contendo uma coroa radiada ou não, as marcas de controle e nomes dos magistrados apresentam um conjunto intrincado de associações, mas a coleção é principalmente um retrato da circulação de emissões oficiais e pseudo-ródias em conjunto no Mediterrâneo antigo. A prática da imitação antiga da cunhagem de uma cidade em outra localidade distante aponta para a complexidade do fenômeno monetário na Antiguidade. 

Referências 

ASHTON, Richard H. J. (1988). A series of Pseudo-Rhodian Drachms from Mainland Greece. The Numismatic Chronicle, vol. 148, p. 21 – 32. 

 ___________________ (2001). The Coinage of Rhodes 408 – c. 190 BC. MEADOWS, A.; SHIPTON, K. (eds.). Money and its uses in the Ancient Greek World. Oxford, p. 79 – 115. 

____________________ (2013). ΣΤΑΣΙΩΝ with Crossed Club and Bow: More Pseudo-Rhodian Drachms from Northern Greece. The Numismatic Chronicle, vol. 173, p. 33 – 53. 

ROBERT, Jeanne; ROBERT, Louis (1960). Bulletin épigraphique. Revue des Études Grecques, tomo 73, fascículo 344-346, p. 134 – 213.  

ZUSANEK, H. (1996). Rhodos und Helios. Mythos, Topos und Kultenwicklung. Frankfurt.