Berlinda
Número de registro
17083
Forma de aquisição
Descrição
texto com o histórico da aquisição no dossiê do objeto.
Denominação
Berlinda
Local de produção
Termos de indexação
CORTEJOS FÚNEBRES | D JOÃO VI | D MARIA I | DOM JOÃO VI | DOM JOSÉ I | MEIOS DE TRANSPORTE | TRANSPORTE TERRESTRE | TRANSPORTES
Altura (cm)
276,00
Largura (cm)
215,00
Comprimento (cm)
556,00
Observações
Berlinda do século XVIII. Durante a restauração desta viatura, realizada pelos técnicos do Museu Histórico Nacional em 2003, foi retirada a camada de verniz oxidado da caixa, revelando que abaixo da pintura fúnebre havia outra camada pictórica, com fundo azul e brasão da casa real portuguesa, encimado por coroa de duque, contendo um banco de lambel ou de pinchar. Essa importante descoberta indica algumas possibilidades. De acordo com a heráldica, o banco de lambel ou de pinchar no brasão é atributo do herdeiro do trono, enquanto a coroa remete aos duques de Bragança, título usado pelo rei e herdeiro do trono português. Esses indícios, juntamente com as características da Berlinda, sugerem que a mesma pode ter pertencido a D. José (1761-1788) ou D. João (1767-1826), ambos filhos de D. Maria I (1734-1816), sendo que o primeiro morreu prematuramente e o segundo tornou-se, com a morte da mãe, D. João VI. O fato desta viatura ter vindo de Lisboa (doação de Joaquim Ferreira Alves, proprietário de uma casa funerária) em 1946, é mais um indicativo de que a mesma pertenceu aos herdeiros do trono português. Para manter os registros históricos da peça, a equipe do Museu Histórico Nacional optou por deixar apenas um dos lados da caixa com a pintura fúnebre, recuperando todo o restante de acordo com os moldes originais.
Este suntuoso veículo de tração animal é um dos monumentos mais imponentes da cultura material cortesã, tendo servido à liturgia política e às necessidades de deslocamento e representação pública da Família Real portuguesa e da posterior dinastia imperial brasileira. A peça sintetiza o esforço técnico e estético europeu de transmutar o ato de locomoção em uma encenação teatral de poder, soberania e distinção aristocrática. Vera Tostes (2022, p. 369) sublinha que a carruagem funcionava como um autêntico aparato cenográfico de centralização política e dominação simbólica sobre o espaço urbano do Rio de Janeiro oitocentista. Ao desfilar pelas ruas da capital, a opulência dos entalhes, douramentos e tecidos operava uma pedagogia visual que reafirmava a hierarquia social e a sacralidade do monarca perante uma população predominantemente escravizada e marginalizada. Resguardada no acervo do MHN, a peça permite analisar criticamente os rituais de poder do Antigo Regime nas Américas, a dependência colonial de tecnologias e modas europeias, e o paradoxo de uma modernidade de transportes que coexistia com a exploração humana e o trabalho compulsório.
Referências expográficas
Referências bibliográficas
BESSONE, Silvana. O Museu Nacional dos Coches. Lisboa: Instituto Português de Museus / Fondation Paribas, 1993 | Castel-Branco Pereira, João. Viaturas de aparato em Portugal. Bertrand Editora Ltda, 1987. | Catálogo da exposição "Museu Histórico Nacional: 90 anos de histórias, 1922-2012". Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2013 | Do Móvel ao automóvel: Transitando pela história. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2009. (catálogo de exposição). | TOSTES, Vera Lúcia Bottrel. Carruagem real. In: "Histórias do Brasil: 100 objetos do Museu Histórico Nacional (1922-2022)". Rio de Janeiro: MHN, 2022. p. 369--373.
Autoria das fotos
Jaime Acioli









